
Por Marta Suplicy, psicóloga e psicanalista
A lucidez e sensibilidade de
João Pereira Coutinho, em seu artigo “
O terremoto da pobreza” (Folha de S. Paulo, Ilustrada E-8, 19.01), me tocaram. Ele aborda a tragédia do Haiti, assinalando que “
não é só produto da natureza; é resultado da incúria humana e da corrupção”. Palavras fortes, precisas.
Coutinho baseia sua análise em estudo de
Matthew Kahn sobre a mortalidade por desastres naturais e sua ligação com renda, geografia e instituições. Exemplo do que apurou Kahn: "
enquanto na Índia entre 1980 e 2002 ocorreram 14 grandes terremotos com 32.117 mortes, nos EUA ocorreram 18 grandes terremotos com 143 mortes. Os cataclismas acontecem de forma equilibrada no mundo". O que muda é o numero de mortos e o cuidado com os que sobrevivem.
Penso que a teoria de Kahn, universal, se aplica, portanto, ao que assistimos hoje em São Paulo.
A população, sobretudo a da Capital, já se pronuncia com temor diante do que percebe, com mais ou menos apuro, como descaso, desorganização social, falta de assistência pertinente e abandono das vítimas pobres e desamparadas. A divulgação de uma pesquisa do Ibope, nesta terça-feira, mostra isso. O percentual de pessoas que afirmaram ter como principal medo na cidade os alagamentos, passou de 6% em 2009 para 28% neste ano.
Há motivos. Registra reportagem da Folha de S. Paulo: “
do início de dezembro até esta segunda-feira (18), as chuvas intensas que atingiram o Estado de São Paulo já deixaram o dobro de mortos do que o registrado ao longo de todo o verão passado.”
Osasco registrou 12 mortes. No Vale do Paraíba foram 8, no interior, 7 e, em Guarulhos, 6 (mesmo número registrado na capital paulista, que ainda enfrenta enchentes).
No domingo, moradores do Jardim Pantanal (zona leste de São Paulo) enfrentaram nova inundação por causa da chuva. E é lá, resguardadas as proporções, que temos cenas que lembram, dolorosamente, que aqui no estado e cidade mais ricos do país temos também nossos haitis. Vemos, trágica e inexoravelmente aplicada a explicação de Kahn.
Uma equipe da reportagem do
SigaMPost esteve no local. E você pode conferir as videoreportagens que apresentamos no site.
O fato, quando falamos de enchentes em São Paulo, é que nossos problemas se agravaram muito quando, em décadas passadas, opções equivocadas por avenidas e marginais ocorreram. Acrescente-se à impermeabilização do solo, principalmente nas regiões mais carentes da cidade, a não construção de piscinões suficientes.
Os ex-prefeitos Paulo Maluf e Celso Pitta construíram 7 piscinões, em 8 anos. Quando fui prefeita, conseguimos fazer mais 7 e, além destes, mais dois em parceria com o Estado, num total de 9, em 4 anos. O ex-prefeito e atual governador José Serra e seu sucessor Gilberto Kassab, em 6 anos, fizeram vários anúncios. De prático, agora, como governador, Serra entrega 1 piscinão na bacia do córrego Pirajuçara, parceria com a prefeitura.
Some esses ingredientes perigosos e acrescente uma ocupação desvairada em áreas de risco, com um gigantesco déficit habitacional.
Esta é a atual situação paulista.
Em entrevista ao
SigaMPost, o engenheiro Julio Cerqueira Cesar Neto afirma que há "
desgoverno" e falta de transparência no controle do nível de abastecimento das represas que servem a região metropolitana de São Paulo. Lembra que, paradoxalmente, há déficit de abastecimento de água. "
Cada um (instâncias de governo) vai lá e faz o que quer, sem controle".
Quem sofre com isso? A população da região metropolitana, 20 milhões de paulistas.
Quando prefeita, levei ao então ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, um profundo e volumoso estudo de soluções para acabar com as enchentes de São Paulo. Argumentei que, caso não fosse feita uma intervenção drástica na cidade, levaríamos, pelas contas daquela ocasião, uns 28 anos para dar um bom encaminhamento para o sofrimento do paulistano com as águas. Isso, claro, considerando que nossos sucessores fizessem investimentos, o que hoje, com os balanços de cada gestão em mãos, sabemos, rigorosamente não ocorreu.
O governo federal não tinha à época os recursos. Pleiteamos, então, em razão da seriedade da situação e do peso dos investimentos, uma parceria internacional com o Banco Mundial, Governo Federal, Estado e Prefeitura.
Acabou a gestão. E o que vimos, depois, foi este estudo não ser aproveitado e, como resultado, a condição tétrica de São Paulo frente às chuvas ser esquecida. Hoje, se vê que foi um gravíssimo erro, e que custa absurdamente caro. Prejuízos materiais e mais que isso, um bem essencial, impagável, vidas.
A falta de planejamento da Defesa Civil demonstra algo pior: desprezo e abandono do povo pobre. O caso do Jardim Pantanal é emblemático. Dias e dias para se ter qualquer proposta ou ajuda. Quantas semanas foram necessárias para drenar a água e o esgoto que se espalhavam nestas regiões paupérrimas, inundadas e arrasadas? Esperavam o quê para tomar uma providência? Que a água baixasse sem gastos para a Prefeitura? Que as famílias saíssem enfim de uma área de risco em troca do magro cheque já oferecido? Indigno! Cruel!
Faltou interesse e prioridade aos carentes. Também competência e planejamento para cuidar dessas áreas. Onde seria possível investir na Capital, como utilizando os recursos do BID que foram deixados para piscinões no Centro, vimos que a resposta da administração era que “não seriam prioritários”. O projeto e recursos aprovados foram abandonados. E o Anhangabau mais uma vez encheu.
A lição, enfim, a aprender, nesses episódios, dos nossos “
haitis” é uma só: não vamos evitar tragédias e salvar vidas se não concentrarmos esforços necessários para garantir na sociedade distribuição de renda (aqui cabe um lamento particular ao abandono dos programas sociais da cidade de São Paulo, recuo imperdoável), planejamento urbano, emprego, moradia e cidadania.
Está certíssimo
Matthew Kahn: a relação da renda do país (ou cidade, acrescento), a capacidade de governança e a democracia têm tudo a ver com as conseqüências que temos de enfrentar em cada localidade.
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"O terremoto da pobreza"
Quem é Marta Suplicy
Psicóloga e psicanalista. Formada pela PUC-SP, com mestrado em Psicologia Clínica pela Michigan State University e pós-graduação na Stanford University. Foi ministra do Turismo, prefeita de São Paulo. Em 2004, foi eleita e se tornou a primeira presidente da entidade internacional Cidades e Governos Locais Unidos (CGLU) - fusão das três principais entidades mundiais de prefeitos: Federação Mundial de Cidades Unidas (FMCU), União Internacional de Autoridades Locais (IULA, sigla em inglês) e Metropolis (rede formada por cidades com mais de um milhão de habitantes). Encerrou o mandato de prefeita de São Paulo com 49% de aprovação. Antes de ser prefeita, foi deputada federal (1995-1998), eleita pelo PT. No mandato, foi escolhida por duas vezes (96 e 97) pelo DIAP – Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar como uma das parlamentares mais atuantes do Congresso Nacional. É autora da lei que obrigou, pela primeira vez na história do país, a legislação eleitoral a estabelecer cota mínima de participação de mulheres candidatas em eleições proporcionais. Apresentou o projeto de parceria civil para pessoas do mesmo sexo, que está pronto para votação desde 1996. Antes de ingressar na política, apresentou o quadro Comportamento Sexual na TV Mulher da Rede Globo (1980-1986). Foi colunista dos jornais Folha de S. Paulo e O Dia e das Revistas Cláudia e Vogue.
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