MPost

Idéias para um Brasil melhor

Mpost

"A turba da Uniban", Contardo Calligaris, na Folha de S. Paulo

Desde a primeira notícia a respeito da agressão sofrida pela estudante Geysa Arruda, da Uniban, no final do mês passado, várias reportagens têm tratado do tema e articulistas têm trabalhado compreensões sobre o que ocorreu. O que significa, afinal, tamanha violência? Nesta quinta (5/11), MPost destaca o texto de Contardo Calligaris, na Folha de S. Paulo. Leia. Opine.


A turba da Uniban


CONTARDO CALLIGARIS
Folha de S. Paulo - Ilustrada - 5/11



As turbas têm um ponto em comum: detestam a ideia de que a mulher tenha desejo próprio


NA SEMANA passada, em São Bernardo, uma estudante de primeiro ano do curso noturno de turismo da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) foi para a faculdade pronta para encontrar seu namorado depois das aulas: estava de minivestido rosa, saltos altos, maquiagem -uniforme de balada.

O resultado foi que 700 alunos da Uniban saíram das salas de aula e se aglomeraram numa turba: xingaram, tocaram, fotografaram e filmaram a moça. Com seus celulares ligados na mão, como tochas levantadas, eles pareciam uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa.

A história acabou com a jovem estudante trancada na sala de sua turma, com a multidão pressionando, por porta e janelas, pedindo explicitamente que ela fosse entregue para ser estuprada. Alguns colegas, funcionários e professores conseguiram proteger a moça até a chegada da PM, que a tirou da escola sob escolta, mas não pôde evitar que sua saída fosse acompanhada pelo coro dos boçais escandindo: "Pu-ta, pu-ta, pu-ta".

Entre esses boçais, houve aqueles que explicaram o acontecido como um "justo" protesto contra a "inadequação" da roupa da colega. Difícil levá-los a sério, visto que uma boa metade deles saiu das salas de aula com seu chapéu cravado na cabeça.

Então, o que aconteceu? Para responder, demos uma volta pelos estádios de futebol ou pelas salas de estar das famílias na hora da transmissão de um jogo. Pois bem, nos estádios ou nas salas, todos (maiores ou menores) vocalizam sua opinião dos jogadores e da torcida do time adversário (assim como do árbitro, claro, sempre "vendido") de duas maneiras fundamentais: "veados" e "filhos da puta".

Esses insultos são invariavelmente escolhidos por serem, na opinião de ambas as torcidas, os que mais podem ferir os adversários. E o método da escolha é simples: a gente sempre acha que o pior insulto é o que mais nos ofenderia. Ou seja, "veados" e "filhos da puta" são os insultos que todos lançam porque são os que ninguém quer ouvir.

Cuidado: "veado", nesse caso, não significa genericamente homossexual. Tanto assim que os ditos "veados", por exemplo, são encorajados vivamente a pegar no sexo de quem os insulta ou a ficar de quatro para que possam ser "usados" por seus ofensores. "Veado", nesse insulto, está mais para "bichinha", "mulherzinha" ou, simplesmente, "mulher".

Quanto a "filho da puta", é óbvio que ninguém acredita que todas as mães da torcida adversa sejam profissionais do sexo. "Puta", nesse caso (assim como no coro da Uniban), significa mulher licenciosa, mulher que poderia (pasme!) gostar de sexo.

Os membros das torcidas e os 700 da Uniban descobrem assim um terreno comum: é o ódio do feminino -não das mulheres como gênero, mas do feminino, ou seja, da ideia de que as mulheres tenham ou possam ter um desejo próprio.

O estupro é, para essas turbas, o grande remédio: punitivo e corretivo. Como assim? Simples: uma mulher se aventura a desejar? Ela tem a impudência de "querer"? Pois vamos lhe lembrar que sexo, para ela, deve permanecer um sofrimento imposto, uma violência sofrida -nunca uma iniciativa ou um prazer.

A violência e o desprezo aplicados coletivamente pelo grupo só servem para esconder a insuficiência de cada um, se ele tivesse que responder ao desejo e às expectativas de uma parceira, em vez de lhe impor uma transa forçada.

Espero que o Ministério Público persiga os membros da turba da Uniban que incitaram ao estupro. Espero que a jovem estudante encontre um advogado que a ajude a exigir da própria Uniban (incapaz de garantir a segurança de seus alunos) todos os danos morais aos quais ela tem direito. E espero que, com isso, a Uniban se interrogue com urgência sobre como agir contra a ignorância e a vulnerabilidade aos piores efeitos grupais de 700 de seus estudantes. Uma sugestão, só para começar: que tal uma sessão de "Zorba, o Grego", com redação obrigatória no fim?

Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam ou militaram no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado.


ccalligari@uol.com.br

Tags: Mpostnoticias, contardocalligaris, folhadespaulo, uniban

Comentar

Você precisa ser um membro de MPost para adicionar comentários!

Join MPost

VENHA PRA CAPA

Escreva, também, em sua página. Coloque vídeo, reportagem, sua música. A redação do MPost está de olho. Postagens mais legais ganham destaque na capa


CRIANÇAS

Criança brasileira está mais alta



Parâmetros de crescimento de estudantes do país superam internacionais na média, diz pesquisa.
Autores avaliaram dados de mais de 41 mil estudantes do país e criaram curvas nacionais de estatura, peso e índice de massa corporal. Saiba mais (Postado em 11.03 - 15h45)


MODA

O mendigo mais estiloso do mundo



Este chinês aí em cima nas fotos aparece sempre vagando pelas ruas de Ningbo com um look mais ousado que o outro - muitos deles, femininos. (Postado em 11/03 - 14h30)

BILHONÁRIOS

Eike Batista é o oitavo mais rico do planeta, diz a revista Forbes



O primeiro é o mega-empresário das comunicações, o mexicano Carlos Slim. (Postado em 11/03 - 14h20)

DEPOIS DO CARNAVAL

Lixo espalhado no fundo do mar



Dez dias depois do carnaval, um grupo de amigos mergulhou no Farol da Barra (Salvador -BA) para confirmar um boato de que havia grande quantidade de lixo espalhada no fundo do mar. Segundo o relato dos mergulhadores, eram cerca de 1500 latinhas de cerveja e garrafas plásticas - resultado direto do carnaval que ocorrera na praia do Porto da Barra. Confira (Postado em 11.03 - 12h30)

ALÉM DO FUTEBOL

Eliminado, Real também registra queda nas vendas de camisas e público


Não bastasse a terrível eliminação que o Real Madrid sofreu ontem para o Lyon na Champions League, a sexta consecutiva nas oitavas de final da competição, e que vai certamente afetar o orçamento do clube, as notícias fora de campo também não são as melhores. Estar fora da fase final significa perder a chance de receber algo em torno de 82 milhões de euros entre premiações, patrocínios e outras receitas. Confira (Postado em 11.03 - 12h25)

LIXO NO LIXO

Pelo cano, por Ruy Castro

"Li no jornal que os campeões de entupimento de esgotos são absorventes, algodões, camisinhas, cotonetes, cuecas, fraldas, o dito fio dental, plásticos e até comestíveis, como pizzas aos quatro queijos, bruschettas e mortadelas. Tudo pelo cano." Confira (Postado em 10.03 - 12h53)

PRECONCEITO

Mulher de 135 kg é barrada em máquina de tomografia em hospital estadual em Santo André



Mulher se sentiu humilhada em ser barrada em exame no hospital (Postado em 10/03 - 11h40)

FÓRMULA 1

Bruno Senna admite que sua equipe de F-1 pode perder o GP do Bahrein



A temporada da Fórmula 1 começa neste fim de semana (Postado em 10/03 - 14h40)

RECORDE


O americano Bryan Berg posa ao lado de sua réplica do Hotel Resort Macau feita de cartas de baralho, na qual foram usadas 218.792 cartas (Postado em 10.03 - 12h45)

AJUDA

Adriano terá ajuda de uma psicóloga no Flamengo



Presidente Patrícia Amorim revelou que o jogador terá apoio psicológico para se reabilitar e ir para copa de mundo (Postado em 10/03 - 12h)

© 2010   Criado por Mpost

Badges  |  Relatar um incidente  |  Privacidade  |  Termos de serviço